Percepção da fertilidade: Parte 4 – O método sintotermal

Método sintotermal de percepção da fertilidade: uma forma de observar, registrar e interpretar os sinais de fertilidade do corpo para saber os períodos fértil e infértil do ciclo menstrual.

O método sintotermal de percepção da fertilidade é uma forma de observar, registrar e interpretar os sinais de fertilidade do corpo para saber os períodos fértil e infértil do ciclo menstrual. Imagem: Kindara, aplicativo baseado no método sintotermal.

 

Este post é a parte 4 da série Percepção da Fertilidade; se você não viu ainda, aqui está a parte 1, que explica o que é a percepção da fertilidade (e porque ela é MUITO interessante)!

Também recomendo ver toda a série “Lá embaixo”, que descreve o sistema sexual e reprodutor feminino. Fica a dica!

Neste post vamos ver como o método sintotermal permite saber os dias férteis e inférteis do ciclo menstrual, a data da ovulação, e a data da próxima menstruação, e como ele pode user usado pra engravidar, evitar engravidar, e monitorar a saúde!

Não é magia, é biologia! 😉

Alguns esclarecimentos importantes antes de começar:

  • Este post não é um manual de instruções nem receita de bolo, é só um texto explicando o funcionamento do método. Usar o método sintotermal é como dirigir e andar de bicicleta: tem que aprender e praticar pra dar certo! Na parte 6 desta série, vou escrever sobre onde e como aprender o método. Aguarde!
  • Antes de entender o método, é fundamental conhecer o sistema sexual e reprodutor e entender o que acontece durante o ciclo menstrual!
  • O método sintotermal depende da observação e interpretação dos sinais de fertilidade da mulher, portanto, só vale pra quem não usa nenhum tipo de contraceptivo hormonal (como pílula, adesivo, injeção, anel, DIU — dispositivo intrauterino — hormonal). Quem usa pode até treinar o método, só pra ver como é e se acostumar, mas não vai observar o padrão de mudanças que normalmente acontece num ciclo menstrual natural.
  • O método sintotermal pode ser usado junto com outros contraceptivos não-hormonais (como camisinha masculinha ou feminina, diafragma, DIU de cobre).
  • O método sintotermal não previne DSTs — doenças sexualmente transmissíveis! Pra prevenir DSTs, tem que usar camisinha!
  • O ciclo menstrual sofre mudanças ao longo da vida e em certas situações: primeiros anos após o início da menstruação, síndrome de ovário policístico, primeiras semanas/meses após parar de usar contraceptivo hormonal, pós-parto, amamentação, pré-menopausa e menopausa. É possível usar o método sintotermal nesses casos, sim, mas veremos isso outro dia!

 

O Método Sintotermal

 


O método sintotermal é uma forma de observar, registrar e interpretar os sinais de fertilidade do corpo pra saber informações importantes sobre o ciclo menstrual, como os dias férteis e inférteis, a data da ovulação, e a data da próxima menstruação. Todas essas informações podem ser usadas pra engravidar, evitar engravidar, e monitorar a saúde.


Como já vimos, os sinais de fertilidade são sintomas que refletem do lado de fora as mudanças que acontecem dentro do corpo durante o ciclo menstrual, e entre eles, os principais são o fluido cervical, a temperatura basal, e o colo do útero.

O fluido cervical é um fluido natural e saudável produzido pelo colo do útero (ao contrário do corrimento não-saudável que pode indicar irritação e doenças), que permite a passagem dos espermatozoides e aumenta a sobrevivência deles (de horas pra DIAS!) dentro do sistema sexual e reprodutor feminino. O fluido cervical muda em quantidade, cor e textura ao longo do ciclo menstrual, indicando se a ovulação está próxima, prestes a acontecer, ou já aconteceu naquele ciclo.

A temperatura basal é a temperatura do corpo em estado de repouso, medida com um termômetro adequado logo após acordar e antes de se levantar. A temperatura basal reflete o metabolismo do corpo, que é afetado pela ovulação. Então, a mudança no padrão da temperatura basal indica que a ovulação já aconteceu naquele ciclo.

O colo do útero é a parte inferior e menor do útero, que produz o fluido cervical. A posição, a textura e a abertura do colo do útero mudam ao longo do ciclo menstrual, indicando se a ovulação está próxima, prestes a acontecer, ou já aconteceu naquele ciclo.

Pra acompanhar essas mudanças usando o método sintotermal, é importante observar diariamente esses sinais de fertilidade.

Observar os sinais de fertilidade

 


Pra observar os sinais de fertilidade, é preciso verificar o fluido cervical, medir a temperatura basal e (opcionalmente) verificar o colo do útero, diariamente.


 

E não precisa ter um laboratório com equipamentos caríssimos e técnicos especializados dentro de casa pra fazer isso! Papel higiênico, termômetro e dedo são o suficiente! 😉

 


Verificar o fluido cervical ao longo do dia, ao se movimentar e se limpar no banheiro, prestando atenção na sensação da vagina e da vulva, reparando na cor e textura do fluido cervical.


 

A movimentação ajuda o fluido cervical a escorrer pela vagina até a vulva, e isso vai acontecendo ao longo do dia, por isso é importante verificar mais de uma vez ao dia.

Uma forma simples de fazer isso é verificar quando for ao banheiro, antes de fazer qualquer coisa (ou seja, antes de urinar ou defecar), usando um ou dois quadradinhos de papel higiênico dobrado, passando pela vulva com um movimento de frente pra trás, e reparar na sensação. O papel passa difícil, raspando? Passa nem fácil nem difícil, macio? Passa super fácil, deslizando?

Além de reparar na sensação, também dá ver o fluido cervical no papel ou na calcinha. E também é possível verificar internamente. Pra verificar internamente, a mulher pode inserir o dedo indicador e o dedo médio dentro do canal vaginal, até alcançar o colo do útero, e fazer um movimento de tesoura, pinçando um pouco do fluido cervical entre os dedos, e trazendo ele pra fora. Mas nesse caso, vale lembrar que assim como o interior da nossa boca sempre está úmido ao toque, o interior da vagina também. Essa umidade fica nos dedos mas evapora em poucos segundos, mas o fluido cervical continua nos dedos.

É importante reparar na textura e cor do fluido cervical (aqui tem fotos!), que em geral vai mudando ao longo do ciclo nessa sequência:

  • com um aspecto firme e grudento, seco, e cor mais opaca, bege;
  • com um aspecto cremoso, mais úmido, e cor menos opaca, mais esbranquiçada;
  • com um aspecto de clara de ovo, muito úmido, cor transparente ou muito levemente esbranquiçado, lubrificante, elástico, OU com aspecto aguado, também muito úmido, transparente e lubrificante, mas não elástico.

Em geral, todos esses tipos de fluido são considerados férteis, ou seja, todos eles aumentam a sobrevivência dos espermatozoides dentro do sistema sexual e reprodutor da mulher! Mas, quanto mais úmido o fluido cervical, melhor pros espermatozoides se movimentarem, e mais perto da ovulação a mulher está.

É importante prestar atenção no dia de pico. O dia de pico é o último dia com fluido cervical úmido, antes do fluido secar parcial ou totalmente. No dia de pico não importa a quantidade de fluido, o que importa é que no dia seguinte o fluido fica mais seco (por exemplo, no dia de pico a mulher tem fluido clara de ovo ou aguado, e no dia seguinte tem fluido cremoso) ou seca totalmente (por exemplo, no dia de pico a mulher tem fluido clara de ovo ou aguado e o dia seguinte é um dia seco, sem fluido).

Outra coisa importante: a presença de sêmen na vagina pode alterar a percepção do fluido cervical no dia seguinte. Pra evitar isso, após o sexo, a mulher pode ir ao banheiro e em seguida fazer alguns exercícios de Kegel, contraindo e soltando a musculatura pélvica, o que vai ajudar o sêmen a sair da vagina.

Usar espermicidas (comumente usados junto com o diafragma, e presentes em alguns tipos de camisinhas) não é aconselhado, porque eles também podem alterar a percepção do fluido.

 


Medir a temperatura basal uma vez ao dia, na boca ou vagina, logo após acordar mas antes de se levantar, usando um termômetro adequado.


 

A ideia aqui é medir a temperatura do corpo logo ao despertar, então é importante deixar o termômetro ao lado da cama, de forma que dê pra pegar sem se levantar e se mexer muito. O termômetro adequado pra medir a temperatura basal é chamado termômetro basal. Ele pode ser de vidro, ou um termômetro digital que faça a leitura com 2 casas após a vírgula em graus Celsius (por exemplo, 36,42°C), também chamado termômetro de alta precisão.

A temperatura pode ser medida na boca (embaixo da língua) ou na vagina, o importante é medir sempre no mesmo lugar durante todo o ciclo menstrual.

Também é importante deixar o termômetro no lugar por tempo suficiente pra fazer a medida. Em geral, os termômetros basais digitais apitam após alguns segundos (assim como os termômetros digitais comuns), mas a medida feita com esse período de tempo só serve pra verificar se a pessoa está com febre ou não. É bom consultar o manual, mas em geral, pra medir a temperatura basal, recomenda-se deixar o termômetro por pelo menos 1 minuto.

O ideal é medir a temperatura após pelo menos 3 horas de sono/descanso, e não mudar o horário da medida em mais de uma hora. Se não for possível fazer isso, ou se acontecerem outras coisas que podem alterar a temperatura (doença, febre, beber na noite anterior), tudo bem, mas é importante anotar o horário da medida e o que aconteceu, e levar isso em consideração na hora da interpretação.

 


Verificar o colo do útero (opcional) uma vez ao dia, colocando um dedo limpo dentro da vagina e reparando na altura, textura e abertura do colo do útero.


 

Só com as informações sobre o fluido cervical e a temperatura basal, já dá pra usar o método sintotermal muito bem, obrigada. Mas, pras pessoas mais curiosas ou que querem mais um sinal pra confirmar os outros dois, verificar o colo do útero pode ser muito útil.

Pra verificar o colo do útero, é essencial ter mãos e unhas (de preferência, curtas) limpas e tranquilidade. Uma excelente hora pra fazer isso é à noite, depois de tomar banho! Boas posições pra verificar o colo do útero são em pé com uma perna elevada (apoiada numa cadeira, ou vaso, ou banheira), agachada (de cócoras) ou deitada com travesseiros nas costas. O importante é verificar mais ou menos no mesmo horário e na mesma posição durante todo o ciclo.

E como verifica? Colocando um dedo, lentamente (e com um pouco de lubrificante, se precisar), dentro da vagina, e indo até sentir o colo do útero lá no fundo. Dependendo da mulher e da fase do ciclo em que ela estiver, pode ser um pouco difícil de sentir o colo do útero, ele pode estar bem elevado. Mas em geral, dá pra sentir, sim. A sensação é de que o colo do útero é lisinho (ao contrário da vagina, que tem uma textura enrugada), com o formato de uma rosquinha: uma bolinha com uma covinha, e nessa covinha, uma abertura. Essa abertura pode ser um buraquinho arredondado (pra quem não teve filhos ou não teve nenhuma dilatação) ou uma fenda (pra quem já teve filhos e alguma dilatação).

A textura, a altura e a abertura do colo do útero variam ao longo do ciclo menstrual. Na maior parte do ciclo, o colo do útero está firme (como a ponta do nariz), baixo (a mulher não precisa inserir o dedo tão fundo na vagina pra alcançar) e fechado (exceto durante a menstruação, quando está aberto pro sangue sair). Nos dias próximos à ovulação, o colo do útero está macio (como os lábios), alto (a mulher tem que inserir o dedo mais fundo na vagina, e mesmo assim pode não conseguir alcançar) e aberto (uma abertura suficiente pra caber a unha do dedo mindinho, mais ou menos).

Além do fluido cervical, da temperatura basal, e do colo do útero, a mulher também pode observar outros sinais de fertilidade, como desconforto e dor de ovulação, sangramento de ovulação, inchaço nas mamas e na vulva, sensibilidade nas mamas e nos mamilos.

Ela também pode observar outros sintomas, pra ver se eles acontecem com mais frequência ou em maior intensidade em certas fases do ciclo menstrual, como cólicas, dor de cabeça, mudanças bruscas de humor, desejos por comida, constipação, entre outros.

Registrar os sinais de fertilidade

Não adianta nada só observar os sinais de fertilidade e deixar por isso! A memória, por mais afiada e fotográfica que seja, nos prega peças, então é muito importante registrar tudo o que foi observado! E dá pra fazer isso de diferentes formas.

A forma tradicional é usando um gráfico impresso e preenchendo à mão (há vários modelos online, em inglês, pra baixar e imprimir, basta procurar por “fertility awareness method chart” ou “sympto-thermal method chart”). Também há modelos em arquivos de planilha, pra preencher no computador, mas com o mesmo padrão dos gráficos impressos.

A forma mais atual, e que tem aumentado bastante, é usando apps (aplicativos pra smartphones e tablets) e/ou serviços online.

Mas cuidado! Tem muitos apps pra acompanhar o ciclo menstrual por aí, mas a maioria deles funciona basicamente como a famosa (e pouco eficaz) “tabelinha”!

 


Pra usar o método sintotermal, o app tem que ter a opção de registrar pelo menos os três sinais primários de fertilidade: o fluido cervical, a temperatura basal, e o colo do útero. A ideia aqui é que a mulher use o app apenas como ferramenta pra registrar os sinais de fertilidade de forma simples, fácil e rápida; e não pra obter interpretações e previsões. Quem vai interpretar os sinais de fertilidade é a própria mulher, depois de ter estudado e entendido o funcionamento do ciclo menstrual e do método sintotermal!


 

Alguns apps que permitem fazer isso são:

  • Kindara, para Android e iOS (uso e recomendo! A mesma empresa vai lançar este ano um termômetro basal que sincroniza automaticamente com o app. Estou curiosa pra testar, e se você estiver também, este link dá um desconto!)
  • OvuView, pra Android (já usei e recomendo!);
  • Fertility Friend, pra Android e iOS (não usei, mas sei que funciona com o método sintotermal);
  • Groove, pra iOS (não usei, mas sei que funciona com o método sintotermal).
  • Glow, pra Android e iOS (não usei, mas sei que funciona com o método sintotermal);
  • Clue, apenas pra iOS, já que a versão pra Android infelizmente não tem a opção de registrar a temperatura basal (não usei, mas sei que funciona com o método sintotermal);
  • Fertility Diary pra Windows Phone (não usei, mas sei que funciona com o método sintotermal).

Interpretar os sinais de fertilidade

Pra interpretar os sinais de fertilidade e determinar as fases fértil e infértil, o método sintotermal tem um conjunto de regras a seguir.

Como já falei lá em cima, mulheres com ciclos irregulares (duração menor que 21 ou maior do que 35 dias), que acabaram de ter filhos (e estão amamentando ou não), na pré-menopausa ou menopausa, que pararam de tomar anticoncepcional hormonal (pílula, DIU hormonal, adesivo, anel, injeção) recentemente podem usar o método sintotermal, sim, e o princípio continua sendo o mesmo, mas as regras são um pouquinho diferentes (ainda veremos isso aqui no blog!).

O que veremos agora são as regras básicas, segundo uma das melhores referências sobre o método sintotermal, o livro Taking Charge of Your Fertility.


As quatro regras básicas do método sintotermal

  • 3 primeiros dias — em geral, a mulher está infértil nos primeiros três dias de menstruação, desde que seja confirmado que o sangramento de fato é menstruação (ou seja, por aproximadamente 14 dias antes do início do sangramento, sua temperatura basal esteve aumentada).
  • dias secos — em geral, a mulher está infértil na noite de dias secos, ou seja, dias em que ela não teve fluido cervical, desde que os 3 dias anteriores tenham sido de menstruação ou também tenham sido dias secos. A partir do momento em que ela tem fluido cervical, de qualquer tipo, ela está fértil, até que a ovulação e o retorno da infertilidade sejam confirmados com as próximas duas regras!
  • temperatura + 3 — em geral, a mulher volta a estar infértil na noite do terceiro dia de temperatura basal aumentada.
  • pico + 3* — em geral, a mulher volta a estar infértil na noite do terceiro dia após o dia de pico, ou seja, o último dia de fluido cervical mais fértil e úmido.

 

* Originalmente, essa regra era pico + 4, mas na última versão do livro Taking Charge of Your Fertility, ela foi atualizada para pico + 3.

Por quê?

Vamos por partes.

Lembra de quando nós vimos todos os detalhes do ciclo menstrual? Eles são muito importantes agora!

A regra dos 3 primeiros dias funciona porque, se for confirmado que o sangramento de fato é menstruação, isso significa que óvulo liberado no ciclo anterior já morreu faz tempo, e que a ovulação ainda está longe de acontecer neste ciclo. É importante confirmar que o sangramento é menstruação, porque existem outros tipos de sangramento, inclusive sangramento de ovulação!

E como a gente confirma que o sangramento é menstruação? Medindo a temperatura basal! A temperatura basal se eleva após a ovulação e continua elevada durante toda a fase pós-ovulatória até o final do ciclo e início do ciclo seguinte. Se nos 14 dias (mais ou menos) antes de começar o sangramento (com fluxo de sangue vermelho), a mulher teve esse aumento de temperatura, podemos dizer que esse sangramento realmente é menstruação.

A limitação de 3 dias é porque, caso a ovulação aconteça cedo no ciclo menstrual, o colo do útero já vai começar a produzir fluido cervical mesmo durante os últimos dias de menstruação, e o sangue pode fazer com que a mulher não perceba que já tem fluido cervical! Então, por precaução, a partir do quarto dia de menstruação e enquanto o sangramento durar, considera-se que a mulher está fértil.

A regra dos dias secos funciona porque, sem o fluido cervical, os espermatozoides conseguem sobreviver por pouco tempo dentro do sistema sexual e reprodutor da mulher, questão de horas. Como em geral o fluido só começa a ser produzido nos dias próximos à ovulação, nos dias secos a ovulação ainda está muito longe de acontecer, e os espermatozoides não sobreviverão até lá.

A limitação de considerar só a noite é porque o fluido cervical vai escorrendo pela vagina ao longo do dia, com a movimentação do corpo. Se a mulher verificar só de manhã, e o fluido não escorreu ainda, pode achar que aquele é um dia seco, quando não é.

A limitação dos 3 dias anteriores ao dia seco serem dias de menstruação ou dias secos também é porque, basicamente, um dia de fluido é suficiente pra alterar o ambiente da vagina e torná-lo amigável pros espermatozoides. Se isso acontecer (um dia com fluido e o dia seguinte seco), por precaução, a mulher deve se considerar fértil até que tenha três dias secos. A partir daí, ela pode aplicar a regra dos dias secos.

Detalhe: a presença de sêmen na vagina pode atrapalhar a percepção do fluido, então se num dia a mulher não tiver feito exercícios de Kegel após o sexo pra expulsar o sêmen, por precaução, ela deve considerar que o dia seguinte é um dia fértil.

A partir do momento em que o colo do útero começa a produzir fluido cervical, de qualquer tipo, começa oficialmente o período fértil! E ele termina após a confirmação da ovulação com as duas últimas regras, temperatura + 3 e pico + 3.

A regra de temperatura + 3 funciona porque, por efeito da progesterona, que começa a ser produzida após a ovulação, há uma mudança no metabolismo, que se reflete num aumento na temperatura basal, que continua elevada (em relação às temperaturas da fase pré-ovulatória) até o final do ciclo.

A limitação de esperar 3 dias de temperaturas elevadas é porque a mulher precisa enxergar o padrão da temperatura basal, e não só uma medida isolada. Além disso, e o mais importante, os 3 dias são porque um óvulo vive no máximo um dia, um outro óvulo pode ser liberado até um dia após o primeiro, e esse possível segundo óvulo também vive no máximo um dia. Vale lembrar que a progesterona tem efeito de impedir futuras ovulações no mesmo ciclo, então depois desses 3 dias de temperaturas elevadas, pode-se considerar que não tem e nem vai ter mais nenhum óvulo até o final do ciclo.

A regra de pico + 3 funciona porque assim a mulher tem certeza de que o padrão do fluido cervical realmente mudou. Se nesses 3 dias após o dia de pico ela voltar a ter fluido cervical úmido, esse último dia de fluido úmido passa a ser o novo dia de pico, e a contagem começa de novo.

Mas, se nesses 3 dias, o padrão do fluido cervical realmente mudar pra seco ou mais seco, e a regra de temperatura + 3 também for confirmada, aí sim, considera-se que o período fértil terminou.

Em geral, a temperatura basal vai permanecer elevada por um total de mais ou menos 14 dias. 18 dias com temperaturas elevadas são um excelente indício de gravidez, e um teste feito a essa altura do campeonato muito provavelmente vai dar positivo. Se não houver gravidez, depois desses 14 dias de temperaturas elevadas, mais ou menos, vem a menstruação e começa um novo ciclo.

Usar o método sintotermal

… pra NÃO engravidar

 


O que fazer no período fértil pra NÃO engravidar?

  • evitar qualquer forma de sexo (abstinência);
  • fazer outras formas de sexo que não envolvam contato pênis-vulva/vagina (e seus respectivos fluidos);
  • usar métodos de barreira (como camisinha masculina, camisinha feminina ou diafragma, podendo combiná-los com o coito interrompido).

 

Se for usar métodos de barreira durante o período fértil, é fundamental ter disciplina e saber usar esses métodos corretamente: verificando o estado de conservação das embalagens e a validade, tomando todos os cuidados quanto à hora e forma certa de colocar e tirar, usando lubrificante adequado!

Os métodos de barreira podem ser combinados (por exemplo, camisinha + diafragma, camisinha + coito interrompido), o que não pode é combinar camisinha masculina e camisinha feminina.

… pra engravidar

Pra quem quer engravidar, especialmente pra quem já está tentando há tempos, o período infértil pode servir como um período de descanso, ou pra aproveitar os momentos de intimidade sem a pressão e o estresse de conseguir engravidar.

Obviamente, saber o período fértil traz o benefício de poder “concentrar esforços” no único período do ciclo menstrual em que realmente é possível engravidar!

Falando em concentrar esforços, além de aproveitar o período fértil como um todo, a diferença pra quem quer engravidar é prestar muita atenção e fazer sexo especialmente nos dias de fluido cervical mais úmido, do tipo clara de ovo ou aguado! 😉 Afinal de contas, esse fluido indica que a ovulação está muito próxima!

A partir do momento em que o final da fase fértil for confirmado com as regras de temperatura + 3 e pico + 3, esse ciclo já deu o que tinha que dar, e agora é questão de esperar. E tem que esperar mesmo! Como já vimos no post anterior, a fecundação acontece na tuba uterina, e o embrião formado vai viajando por ela até chegar ao útero e se estabelecer nele, e essa viagem leva vários dias. Portanto, um teste de gravidez só vai dar positivo com pelo menos 7 dias de temperaturas elevadas, mas o ideal é aguardar mais ou menos 14 dias pra fazer o teste!

… pra monitorar a saúde

Usando o método sintotermal, é possível notar informações como:

  • os ciclos estão regulares?
  • a ovulação está acontecendo, e com uma frequência adequada?
  • o colo do útero está produzindo fluido cervical em quantidade e qualidade adequadas?
  • há corrimento não-saudável que indique uma possível irritação ou doença?
  • há sangramentos irregulares (não-saudáveis) durante o ciclo?
  • a duração em dias e intensidade do sangramento durante a menstruação estão adequados?
  • o padrão de temperatura está muito alto ou muito baixo, indicando um possível problema metabólico?
  • a fase pós-ovulatória (contando a partir do primeiro dia de aumento da temperatura basal) tem duração adequada (entre 10 a 16 dias)?

Ter as respostas pra essas e outras perguntas é muito útil, não só pra quem quer engravidar agora. Ter um ciclo menstrual saudável é importante mesmo pra quem quer engravidar no futuro ou pra quem não quer ter filhos.

O ciclo menstrual é como um sinal de alerta, e se algo está errado com ele, isso pode indicar problemas, não só no sistema sexual e reprodutor, como também em em outros sistemas do corpo.

Mas o bom é que, se houver algum problema, as informações obtidas com o método sintotermal podem ajudar a mulher e o profissional de saúde a investigar a causa e tratar adequadamente.

 

Mas isso funciona?

O método sintotermal realmente funciona? E os outros métodos baseados na percepção da fertilidade, funcionam também? Como eles se comparam com os demais contraceptivos?

Veremos as respostas pra essas e outras perguntas importantíssimas no próximo post! 😉 Fique de olho!

 

Veja aqui a continuação desta série:

Percepção da fertilidade: Parte 5 – Contraceptivos e suas taxas de falha

 

Imagem: aplicativo Kindara.

 

  • Pingback: Percepção da fertilidade: Parte 3 - O ciclo menstrual()

  • Manoela Meyer

    Estou adorando os posts <3 Obrigada mesmo por todas as informações!
    Mas ficou a dúvida… além do Wink, existe outra opção de termômetro confiável? Como você faz para medir?

    • Obrigada, Manoela! =)

      Existe outra opção de termômetro confiável, sim. Que eu saiba, aqui no Brasil, não é tão comum de achar em lojas ou farmácias, mas tem online, procurando por “termômetro basal” ou “termômetro de alta precisão”. Também sei que dá pra comprar na Amazon americana e mandar entregar aqui.

      Na América do Norte e na Europa, esse termômetro já é mais fácil de achar até mesmo em farmácias.

      • Manoela Meyer

        Muito obrigada!!!!

  • Pingback: Percepção da fertilidade: Parte 5 - Contraceptivos e suas taxas de falha()

  • Carla Miranda

    Carolina, que tal acrescentar nesta postagem os aplicativos Glow, Clue e Period Diary? 😀

  • Pingback: Percepção da fertilidade: Parte 6 - Como aprender o método sintotermal?()

  • Excelente comentário, Jhenifer! =)

    Basicamente, pra algumas mulheres, o padrão de infertilidade é seco; pra outras, é levemente úmido. Então, realmente, pra algumas mulheres, estar úmida não necessariamente seria sinal de fertilidade. Mas, pra saber qual é o seu padrão, cada mulher precisa observar seus sinais de fertilidade por um certo tempo. Até porque, como qualquer aprendizado, leva um tempo pra nos acostumarmos a observar e interpretar o fluido cervical corretamente (e a diferenciá-lo da umidade natural da vagina).

    Acontece que a proposta deste texto era só passar o básico do básico do método sintotermal, e já ficou grande desse jeito, imagina se eu explicasse esse e outros detalhes “extras”! =P Por isso, pretendo escrever outros textos aqui no blog falando sobre esses detalhes extras e sobre como usar o método sintotermal em situações especiais (durante a amamentação, por exemplo).

  • Bia Melo

    Olá!
    Já saiu o post com regras para pessoas que pararam recentemente de tomar anticoncepcional?
    Obrigada

  • Pingback: Apps pro ciclo menstrual: o problema e a solução()

  • Pingback: Mitos e fatos sobre a menstruação()

  • gabicosta28

    O app Period Tracker também serve pra sintotermal, ele é pra Windows Phone. ❤

  • Jéssica Fux

    muchas gracias por esse post :}
    queria saber, porém, se tem alguma mudança muito radical na produção de fluído e percepção do colo do útero pra quem tem colo retorvertido, ectopia no colo (a chamada “ferida”)….saberias dizer?

    • Obrigada, Jéssica! =)

      Até onde sei, o fato de o útero estar numa posição retrovertida não afetaria a produção do fluido cervical.

      Já no caso da ectopia (aqui tem uma explicação bem interessante e didática: http://www.drcarlos.med.br/artigo_011.html), o que acontece é que a pele muito delicada que reveste o interior do colo do útero sai pela abertura do colo e começa a crescer na parte “externa” do colo, ao invés da pele mais resistente que normalmente reveste essa parte do colo. Como essa pele delicada agora está “do lado de fora” do colo do útero, ela fica em contato com o ambiente da vagina, que é naturalmente ácido, e além disso pode ser “cutucada” durante a relação sexual, e isso pode causar algum sangramento ou irritação. Com a irritação, ela pode produzir um outro tipo de secreção, que talvez confunda à primeira vista, mas é diferente do fluido cervical: enquanto o fluido cervical tem toda essa variação de cor e consistência ao longo do ciclo menstrual mostrada neste post, a secreção da ectopia tende a ser bem consistente, pegajosa e amarelada.

  • Pingback: Mitos e fatos sobre a ovulação()

  • Ana Cristina Sita

    Ola. Está sendo muito bom ler as suas explicações sobre o método sintotermal. Segui o livro da Margaret Nofziger chamado Controle Natural da Natalidade desde que engravidei da primeira vez há 6 anos. COm suas explicações estou compreendendo melhor. Tenho uma dúvida em relação ao dia de pico. Quando acontece o dia de pico e mais três dias secos não corre mais o risco de haver mais um dia de pico (que seria respectivo ao ‘segundo ‘ ovulo liberado)?
    Grata

    • Obrigada, Ana Cristina! =) Fico muito feliz que as explicações estejam ajudando!

      Sobre o dia de pico e o caso de uma dupla ovulação (com a liberação de um segundo óvulo até 24 horas depois que o primeiro óvulo foi liberado), não necessariamente vai ter mais um dia de pico. Mas, em termos de eficácia do método sintotermal, isso não é um problema, porque as regras (a regra de temperatura + 3 e a regra de pico + 3) já levam em consideração a possibilidade de liberação desse segundo óvulo, bem como a sua expectativa de vida.

      Em outras palavras, o método sintotermal, por si só, não nos permite detectar se uma ovulação dupla aconteceu ou não num determinado ciclo (é possível detectar uma dupla ovulação com exame de ultrassonografia, ou se houver gravidez de gêmeos não-idênticos). Ele só permite determinar se a ovulação já aconteceu, e se quaisquer óvulos liberados (um ou mais de um) já morreram.

      Quando há mais um dia de pico dentro da contagem de 3 dias (por exemplo: o dia 21 do ciclo foi o dia de pico com fluido clara de ovo ou aguado, os dias 22 e 23 foram dias secos ou com fluido mais seco, mas no dia 24 aparece novamente fluido clara de ovo ou aguado), aí é necessário reiniciar a contagem (nesse exemplo, o novo dia de pico seria o dia 24, e pra confirmar a regra de pico +3, os dias 25, 26 e 27 precisam ser dias secos ou com fluido mais seco). Esses casos de mais de um pico podem ser simplesmente tentativas de ovulação que não foram pra frente, até que uma hora a ovulação finalmente acontece, e aí sim tanto a regra de pico +3 quanto a regra de temperatura + 3 poderão ser confirmadas.

      Espero ter conseguido responder sua dúvida, mas qualquer coisa, é só perguntar! =)

  • Obrigada, Girleany! =)

    O post sobre as regras do método sintotermal pra quem parou de usar contraceptivos hormonais ainda não existe. Mas, sim, está na lista dos próximos a serem publicados no blog, com certeza!

  • Pingback: Método Sintotermal: contracepção e percepção da fertilidade – a voz()

  • Que bom, Lúcia, fico muito feliz! <3

    Sobre parecer que está quase sempre molhada, é importante saber como você está checando o fluido cervical. Por exemplo, quando a gente checa internamente, sempre vai ter a umidade natural da vagina, e nesse caso a gente tem que ficar atenta pra saber diferenciar essa umidade natural do fluido cervical (uma dica, a umidade natural seca rápido no dedo, o fluido cervical não). O mais recomendado é checar externamente, cada vez que for ao banheiro, antes e depois, com papel higiênico: passando ele pela vulva com um movimento de frente pra trás, e sentindo a sensação do papel passando na pele. Checando assim, é mais fácil de perceber quando realmente está molhada (o papel pode passar "macio" ou até mesmo deslizar e escorregar!) e quando está seca (o papel passa seco, pode até dar a sensação de "raspar" a pele!).

    Se o sangramento realmente for menstruação (veja a minha resposta ao seu outro comentário! =) ), esse fluido transparente é parte do sangue mesmo! Acontece que, como o sangue fica parado e contido pelo coletor, ele vai se separando, fica uma parte mais densa e avermelhada no fundo, e uma parte menos densa e transparente em cima, mas isso é normal. =) Agora, se o sangramento for de ovulação, o mais provável é que esse fluido transparente seja o próprio fluido cervical!